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Como Saber Se As Minhas Roupas São Sustentáveis?

Quando iniciei o meu caminho para uma vida mais sustentável senti dificuldades em entender quais as marcas a escolher, quais as que cumpriam o que prometiam, enfim muitas dúvidas. Muitas pessoas como eu sentem exatamente esse desconforto e desconfiança. Então fazia sentido ter um artigo com as ideias base e ainda dicas, sobretudo responder à pergunta: - Como saber se as minhas roupas são sustentáveis?

Um primeiro passo é saber o que vamos procurar. E começamos por:

Procurar os elementos essenciais para que se designe uma marca ser sustentável. Ou seja, procuramos saber quais os impactos que a marca/produto pode estar a causar em termos de impacto ambiental, de impacto social, de impacto da vida animal e dos ecossistemas. Devemos então perguntar:

Qual o impacto ambiental e as consequências para o planeta decorrentes das atividades desenvolvidas pela marca, seja na fase pré-produção e produção, seja na fase promocional e da distribuição, ou na fase de comercialização?

Qual o impacto social decorrente das condições de trabalho dos seus colaboradores. Neste caso é importante considerar se existem condições precárias ou que coloquem em causa a saúde e vida do colaborador durante a realização das atividades laborais. Esta preocupação deve ser considerada em toda a cadeia de fornecimento, pois sabemos que muitas das marcas Fast Fashion desconhecem ou descuram, se as leis laborais são cumpridas em particular quando existe a deslocalização das fábricas, por exemplo, para países em que as condições de trabalho são no mínimo questionáveis.

O comércio-justo, tem sido valorizado em algumas indústrias, em particular a alimentar, mas que também podemos aplicar à indústria da moda, visto muitas das vezes existir a exploração dos intermediários, impossibilitando que todos os agentes da cadeia sejam reconhecidos pelo real valor do seu trabalho, sobretudo quem efetivamente produz a peça.

Os impactos na vida animal e seus ecossistemas são talvez uma das áreas que mais relacionamos com a sustentabilidade nesta indústria. Historicamente as marcas de roupa e calçado são conhecidas pela utilização indiscriminada de peles de animais, sejam eles exóticos ou não. Os métodos utilizados para a utilização dos diversos tipos de pele deixaram uma parte da sociedade chocada, seguiram-se as manifestações contra as atrocidades cometidas ao longo dos anos. Através de uma maior consciência foram aparecendo marcas para clientes que exigem que os seus produtos sejam produzidos por materiais não provenientes de animais.

Uma Nota Importante: Quando me refiro a marcas sustentáveis, quer dizer que estão de alguma forma a incorporar princípios e padrões de sustentabilidade. Não quer dizer que já tenham cumprido todos os objetivos de sustentabilidade, até porque como costumo dizer - “A sustentabilidade não é um objetivo em si mesma, mas sim um caminho que se percorre de forma permanente”. – VG

Vera Gallardo

Agora que percebemos o que estamos a procurar em termos de impacto, para onde vemos olhar primeiro?

Podemos começar por visitar o site e as redes sociais das marcas/produtos para perceber o que estão a fazer e como o estão a fazer, pesquisar na missão e valores da marca se assumem a sustentabilidade como um objetivo continuo. Nas redes sociais podemos acompanhar como a marca aplica as suas estratégias para atingirem os seus objetivos ou se as ações que promovem vão ao encontro da sua promessa.

É decisivo que as informações que procuramos estejam bem evidentes no site/redes sociais, que sejam claras e percetíveis para o leitor e que se usa da total transparência na informação dispensada. O mesmo deve acontecer se questionarmos diretamente a marca, algo que fiz várias vezes.

Outra forma é uma das que mais utilizamos, isso mesmo, procurar na etiqueta do produto se há alguma pista de que possa ser sustentável em pelo menos uma das áreas (ambiental, pessoas/social e animal).

Como a publicidade pode dizer tudo o que quiser, torna-se mais difícil distinguir o que é verdadeiro ou falso, daí a importância da criação de Normas e Certificações, estas podem determinar se as marcas são verdadeiramente sustentáveis ou quais as áreas em que estão mais focadas.

Portanto, procura as certificações que a marca possui. A certificação por entidades autónomas e independentes asseguram que determinado artigo está de acordo com os pressupostos necessários para conseguirem a certificação. São várias as certificações possíveis e algumas delas vocês já tiveram contato com elas por exemplo nas etiquetas das peças de roupa. A identificação dessa cerificação pode ser feita através de um logo, uma imagem, de uma série de números ou iniciais.

Vamos abordar as certificações, sabendo que nem todas certificam no mesmo setor mesmo que seja dentro da mesma indústria. Ou seja, as certificações podem requerer parâmetros que se destinam a garantir por exemplo o menor impacto possível na cultura de algodão orgânico, fibras orgânicas, e outras a garantir a segurança e as melhores condições de trabalho para as pessoas que trabalham nestas culturas.

ECOCERT

A Ecocert é uma entidade privada que se destina ao controlo e certificação da produção biológica a nível mundial. A área de certificação é bastante ampla que vai desde a agricultura biológica, a cosméticos ecológicos e biológicos, bem como têxteis biológicos e comércio justo entre outras. A sua experiência no plano prático, tem sido reconhecida pelo mercado com muitas marcas a exibirem as suas certificações, sejam estas nas vertentes ambientais ou sociais. Os seus logos são reconhecidos pelo ECO CERT COSMOS ORGANIC e o Fair For Life.

OEKO-TEX®

A OEKO-TEX® é uma Associação de 18 entidades independentes com expertise na área dos têxteis e da pele, provenientes da Europa e do Japão e que hoje se encontram em cerca de 70 países. O sucesso desta Associação que hoje congrega diversas certificações, tem sido capaz de atrair as marcas para adotarem as normas que cada uma delas pressupõe. Desta forma os consumidores podem comprar os produtos certificados e assim terem a certeza que uma entidade independente testou e avaliou os processos da marca para garantir que as normas são respeitadas. Podes conhecer ainda mais algumas certificações aqui.

“As etiquetas STANDARD 100 da OEKO-TEX® e LEATHER STANDARD da OEKO-TEX® estão disponíveis para produtos têxteis e de pele e que foram testados em relação a substâncias nocivas e que são, portanto, seguros do ponto de vista ecológico e humano. Com a etiqueta MADE IN GREEN by OEKO-TEX®, podem ser identificados os tecidos que foram testados no que respeita a substâncias nocivas e também fabricados em condições de trabalho sustentáveis. “- OEKO-TEX®

GLOBAL ORGANIC TEXTILE STANDARDS – GOTS

A GOTS foi desenvolvida em parceria com várias organizações de reputação mundial, com experiência no setor da cultura orgânica e no setor dos têxteis. O propósito seria de harmonizar os diversos padrões espalhados por todo o mundo, facilitando o acolhimento de um padrão que a todos servisse e pudesse ser amplamente concretizado. Sendo uma das mais credíveis é também uma das que mais vemos nas etiquetas dos têxteis (de roupa e casa sobretudo) quando procuramos por estas peças.

“A norma cobre o processamento, produção, embalagem, rótulo, comercialização e distribuição de todos os têxteis feitos com pelo menos 70% de fibras orgânicas certificadas."- GOTS

“As fibras orgânicas são fibras naturais cultivadas sem o uso de pesticidas, inseticidas ou herbicidas sintéticos e OGM (Organismos Geneticamente Modificados) de acordo com os princípios da agricultura orgânica. A agricultura orgânica é um processo de produção que sustenta a saúde dos ecossistemas, solos e pessoas.” – GOTS

SUSTAINABLE FIBRE ALLIANCE – SFA

A SFA é uma iniciativa global, com membros de várias nacionalidades, e tem como principal missão promover boas praticas na produção da caxemira, e encorajando a adoção da certificação para que o futuro da caxemira na indústria têxtil seja mais sustentável. Estas orientações são de extrema importância, uma vez que grande parte da matéria-prima provem de países em que as condições de trabalho e de bem-estar animal poderiam estar em risco.

“Nós promovemos o SFA Cashmere Standard para encorajar a adoção de práticas de produção responsáveis que minimizem o impacto ambiental, salvaguardem os meios de subsistência dos pastores e atendam aos altos padrões de bem-estar animal.” – SFA

RESPONSIBLE WOOL STANDARD – (RWS)

À semelhança da certificação de que falei anteriormente, esta norma tem como intenção a adoção de boas praticas quanto ao bem-estar das ovelhas, uma vez que o produto final é a lã, bem como das terras em que estas pastam. Esta certificação aplica-se tanto aos pastores que criam e cuidam das ovelhas como às empresas que compram ou vendem produtos com lã.

ORGANIC CONTENT STANDARD – OCS

Esta certificação é destinada a todos os produtos (exceto alimentares) que possam comprovadamente ter entre 95% e 100% de material orgânico. O OCS 100 cobre os múltiplos processos, desde a origem até à sua distribuição, fazendo a rastreabilidade dos valores presentes em todas as fases intermédias.

GLOBAL RECYCLED STANDARD – GRS

A GRS é uma norma que visa certificar as empresas que operam no setor têxtil e que utilizam, para a produção de produtos acabados, matérias recicladas. Esta certificação pode ser aplicada quando os produtos finais contenham pelo menos 20% de matérias recicladas. A certificação pode aplicar-se a empresas recicladoras bem como a distribuidores, marcas e a todos os intervenientes de cada fase de produção.

Internationale Verband der Naturtextilwirtschaft e. V. – IVN

A IVN desenvolveu as certificações Naturtextil IVN BEST certified e a Naturleder IVN certified.

E ambas são responsáveis pela proteção e verificação de toda a cadeia de produção têxtil, quer em termos de padrões ecológicos quer em termos de padrões de responsabilidade social. O padrão IVN é destinado tanto a têxteis ecológicos como a couro ecológico.

BCI BETTER COTTON INITIATIVE

A BCI é uma plataforma que congrega vários membros associados, de natureza diversa.

Formada em 2005 através de uma iniciativa da WWF (World Wide Fund) a que se juntaram outras organizações, a intenção era garantir que uma das matérias-primas mais importantes e mais utilizadas tinha no seu futuro uma presença mais sustentável. Hoje com mais de 2000 membros é uma das plataformas que se tem dedicado a promover um conjunto de normas para que todos os intervenientes na cultura e uso de algodão o possam fazer de forma mais ecológica, sustentável e com melhores condições de trabalho. Os produtos com esta etiqueta garantem que provém de membros da BCI e que estão comprometidos com os seus objetivos comuns para no futuro se tornarem mais sustentáveis.

BENEFICIAL WOOL CLIMATE

BWC é uma nova certificação também para produtos produzidos a partir da lã. Neste caso os padrões centram-se na recuperação de CO2 por via de praticas agrícolas que regeneram a terra.

PEOPLE FOR THE ETHICAL TREATMENT OF ANIMALS – PETA

PETA é uma organização sem fins lucrativos, a maior na defesa dos animais com mais de 9 milhões de apoiantes. Grande parte dos seus fundos provêm da contribuição dos seus membros. Dedicada à missão de eliminar os maus-tratos a animais em todo o globo, esta é sobretudo uma organização ativista que através das suas múltiplas ações tem desencadeado um movimento à escala mundial de defesa dos animais, seja na indústria da moda, da cosmética, alimentar entre outras.

Na realidade PETA não é uma marca certificadora, uma vez que para ser aprovada pela PETA e obter a licença para usar os seus logos, basta que uma marca apresente uma declaração de garantia legalmente vinculativa, esta deve ser assinada pelo CEO da companhia. Na declaração consta um compromisso de presente e futuro em que nem a marca nem a sua cadeia de fornecimento irá apoiar ou pagar qualquer teste em animais seja para ingredientes, para formulações ou produtos acabados. Assim quando virem o logo PETA ANIMAL TEST FREE refere-se ao que acabámos de falar e no caso de a marca ter a sua linha sem qualquer ingrediente de origem animal pode apresentar o logo PETA ANIMAL TEST FREE AND VEGAN.

Se tiverem interesse em particular pelas marcas que são aprovadas pela PETA então podem aceder aceder aqui.

ECOAGE

A ECOAGE é sobretudo uma agência de consultoria em sustentabilidade que se tem dedicado a desenvolver juntamente com as empresas e marcas estratégias sustentáveis, incorporando princípios de justiça social e ambiental. Entre os princípios da ECOAGE estão o trabalho justo e de acordo com os direitos humanos, diversidade e inclusão, transparência e promoção para a mudança positiva na indústria da moda.

FAIR TRADE INTERNATIONAL

A FAIRTRADE INTERNATIONAL é uma Associação sem fins lucrativos e que faz parte de um movimento global com o propósito de garantir que todos os intervenientes através do seu trabalho (desde o processo de produção até à comercialização) obtém de forma digna e humanizada e ética o seu modo de vida. Sendo que a missão desta associação consiste no apoio, aplicação de normas e respetiva certificação sobretudo a pequenos agricultores, e ambicionam também gerar maior consciencialização sobre a importância e os benefícios do comércio justo.

São várias as certificações possíveis, sobretudo por serem aplicáveis a vários setores do comércio. As certificações que neste caso mais nos interessam são a FAIRTRADE GOLD que se aplica ao ouro usado para peças de joalharia, e compreende todos os processos, desde a sua extração passando pela sua cadeia de fornecimento.

A FAIRTRADE COTTON é a certificação que é aplicada ao setor do algodão enquanto matéria-prima, indica que todo o processo desde o cultivo até à comercialização é feito de forma justa. Existe também a certificação para os tecidos e ou peças de roupa, designa-se de FAIRTRADE TEXTILE PRODUCTION, e indica que esse tecido ou peça de roupa foi produzida de forma ética. Como vos disse anteriormente existem outras certificações FAIRTRADE, mas estas são as que podem aparecer, mais concretamente, no que diz respeito ao universo da moda.

Existem mais organizações, plataformas, grupos de trabalho, enfim, um número de entidades que apesar de estarem a desenvolver um excelente trabalho não acrescentam mais ao nosso objetivo de hoje.

Para além das certificações, existem outras formas de saber se as marcas que temos em vista são ou não sustentáveis, como por exemplo, através de entidades que fazem essa avaliação por nós. Estas entidades estão disponíveis para consulta nos seus sites ou até em aplicações que desenvolvem mesmo para esse fim. Na indústria da moda a minha sugestão vai para a GOOD ON YOU.

A Good on You é uma plataforma que classifica as marcas quanto à sua sustentabilidade em três áreas, - Planeta – Pessoas –e- Animais, perante estes resultados a marca é classificada na globalidade, através de uma escala de 1 a 5 sendo que 1 é para Evitar e 5 classifica a marca de Excelente. Está disponível na internet, podes aceder ao site ou fazer download da aplicação. E ainda é possível conhecer outras marcas, que talvez sejam uma novidade para ti.

Aconselho vivamente a conhecerem (caso ainda não conheçam) uma organização chamada FASHION REVOLUTIONque é o Movimento Ativista de Moda mais relevante da atualidade. Por já terem muitos anos de intervenção à escala global é uma das plataformas que congrega iniciativas e promove ações de diversas ordens para que cada vez mais e de forma transparente se saiba o que se passa realmente no mundo da moda. Uma das ferramentas que podemos consultar é o Índice Transparência da Moda (Fashion Transparency Index), publicado anualmente, reporta as marcas e respetiva pontuação considerando as suas ações e os impactos negativos que provocam. Este Índice seleciona as principais 250 marcas em vários segmentos desta indústria. Podem consultar ou fazer o download aqui.

Devo, contudo, alertar que atualmente há entidades que por vezes assinalam marcas que ainda não são sustentáveis o suficiente para assim serem consideradas. Algumas marcas apenas promovem pequenas iniciativas sem impacto real, como forma de aproximar o seu público da marca e para ganhar a sua confiança.

Também existem marcas que promovem a sua “sustentabilidade”, mas que ainda estão mais na fase das intenções do que na fase das ações.

VERA GALLARDO

É preciso diferenciar que existem marcas de roupa, calçado e acessórios, que já iniciaram o seu processo de transição, e que o seu esforço é traduzido efetivamente num menor impacto ambiental, social e bem-estar animal. A estas marcas que com enorme esforço se comprometem e cumprem o seu plano de sustentabilidade, podemos e devemos dar oportunidade para que a marca possa alcançar o sucesso que lhe é merecido.

Espero que seja um artigo que guardas para consultares quando quiseres ou partilhá-lo nas redes sociais.

Obrigada por participares nesta comunidade que chega a mais de 50 países!!! Juntos chegamos mais longe.

Abraço

 Vera

#BuyOnlyIfNecessary

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